O mundo corporativo é feito de gente real, e isso ainda é um tabu!

Algumas semanas atrás estava em um desses eventos de palestras para altos executivos, organizado por uma grande empresa do ramo. No palco havia três palestrantes, cada um dando uma “palinha” de seus assuntos antes de entrarem no debate.

O primeiro era um especialista em Vale do Silício, super descolado, com slides bonitos e conteúdo sobre novas tecnologias. Claro que o público gostou. A segunda era a CEO de uma grande empresa, que falou um pouco sobre sua experiência e também agradou. Até que veio o terceiro palestrante.

Ele era um senhor de idade, ligado a uma universidade pública. Talvez por uma questão de estilo, talvez por uma questão de geração, seus slides eram extremamente simples. E ele parecia um pouco desnorteado com o desafio de fazer uma apresentação interessante depois dos dois palestrantes anteriores.

Talvez por isso mesmo tenha aberto sua fala contando algo extremamente pessoal. Aquele era seu primeiro compromisso profissional público depois uma cirurgia de extração da próstata! Foi assim que ele abriu sua palestra, o que já causou um espanto geral em toda a plateia.

Aí ele fala mais uma meia dúzia de coisas, para um pouco, mexe na calça e comenta que ainda estava se adaptando à cueca com enchimento. Mais um susto da plateia, que não sabia se reagia com espanto e risada.

Preciso contar para vocês quem, dos três palestrantes, mais conquistou o público? Claro que não, pois vocês já sabem a resposta.

Ao dividir seus incômodos e angústias aquele senhor se conectou com cada uma das pessoas que estavam na plateia, afinal, quem nunca teve problemas de saúde atrapalhando compromissos profissionais? Eu, que dou aulas e palestras há anos, poderia enumerar uma dezena de vezes que coisas do tipo me aconteceram, desde perder a voz até ter um piriri incontrolável. A vida é isso mesmo.

Mas nem sempre é preciso dividir momentos vexaminosos para conseguir esse tipo de conexão e passar sua mensagem. O ponto é que por trás de toda plateia, empresa ou processo burocrático existem outros seres humanos. Gente como a gente que vai se emocionar com histórias de como vivenciamos e superamos dificuldades de todos os tipos.

Gente como a gente que, ao contrário do que o bom senso pressupõe, não vai ser convencida com dados, fatos e números, mas sim com o relato de experiências humanas transformadoras. Experiências que podem ser nossas ou até de outras pessoas, mas que vão pegar o público mais pela emoção do que pela razão.

Mas, por mais básico que isso pareça, pensar dessa forma ainda é um tabu no mundo corporativo. Por mais que o terceiro palestrante tenha se conectado com aquela plateia, provando a eficiência de uma boa história, 90% das pessoas ali presentes provavelmente teriam muita dificuldade em fazer algo parecido, ainda que fosse com um relato bem menos íntimo.

Esse é um dos motivos pelos quais eu, um especialista em storytelling, e o Paulo Roberto Ramos, preparador de palestrantes do TEDx no Brasil, nos juntamos para abrir o Story Talks. :).

PS: Em um próximo post prometo contar como me safei do piriri no meio da aula.