O Medo de Falar em Público

Muitas vezes encontro nos treinamentos e workshops in-company ou nos eventos abertos pessoas que, embora precisem falar em público, tem medo disso e sentem-se desconfortáveis no lugar de destaque que eventualmente precisam ocupar. Profissionais excelentes, competentes e altamente realizados; mas que sentem-se muito mal “sob os holofotes”. 

O medo de falar em público aparece em todas as profissões, idades e estilos de vida. Muita gente que você jamais imaginaria sente isso. Aliás, já é quase um clássico atores e atrizes famosas que declaram-se “tímidos” quando estão “fora do personagem”. A maioria das pessoas que hoje procura meu trabalho de speaker training (preparação para falar em público) são executivos ou CEOs habituados a isso; pessoas públicas; médicos que se apresentam frequentemente em congressos; jornalistas ou influenciadores digitais com muitos seguidores; profissionais de TV ou video que ficam menos à vontade para falar “ao vivo”. Todos estes, embora já relativamente “confortáveis”, sabem que existe espaço para melhorar a performance no palco, na convenção ou na reunião; ou seja, sabem que há espaço para “afiar o machado”. Mas neste artigo vou falar sobre o medo de falar em público que afeta tanta gente.

Talvez a causa mais comum que as pessoas indicam para o medo de falar em público seja o medo de errar. Principalmente pelas expectativas irrealistas e quase desumanas que são impostas às crianças desde muito cedo; as pessoas acabam sendo ensinadas a temer o erro. Isso é absurdo porque a verdade é que “só não erra quem não faz”. Além disso, na verdade; ser uma pessoa e “jamais errar” não é sequer uma possibilidade.

À parte isso, as pessoas não querem que isso aconteça.. em público! É compreensível, claro; mas o seu maior inimigo quando em público é a sua própria pressão interna para “não errar; não agora…”  Isso é que torna o momento aterrorizante. A visão de que “este” é um momento onde “não pode” errar. O fato é que muitos dos melhores oradores do mundo já erraram. Muitos políticos bons de discurso já erraram falando em público (estamos falando somente do ato de falar em público, ok?)  ;-). 

Mais ainda: todos os apresentadores do Jornal Nacional já erram, ao vivo, várias vezes; e muitas delas, você viu. Acontece. O melhor que você pode fazer para si mesmo é compreender isso: “acontece”. E se acontecer com você, poderá não ser agradável.

MAS: pare; respire. Olhe o seu público nos olhos e, claramente; corrija o erro. Não há o que fazer, a não ser isso. E isso, simplesmente, é o que coloca o erro no passado; e te dá uma nova oportunidade, imediatamente, de “apagar” ou no mínimo, relativizar muitíssimo a importância do erro; primeiro com a atitude correta e modesta: “errei”. Em seguida, continuando a sua fala e se mostrando interessado e interessante. Interessado em doar-se de verdade a quem te ouve. Interessante por ter-se preparado; por ter estudado e ensaiado sua apresentação; por ter dado importância e respeito ao seu público.

Além disso, tem um outro fator interessante: muitos oradores “acertaram” suas performances durante uma fala pública logo em seguida a um “erro”. Adivinha por que? Porque, uma vez que já tinham errado e que o “maior” medo já tinha se realizado; eles se permitiram relaxar um pouco. E tantas vezes, era só o que era preciso...

O mundo corporativo é feito de gente real, e isso ainda é um tabu!

Algumas semanas atrás estava em um desses eventos de palestras para altos executivos, organizado por uma grande empresa do ramo. No palco havia três palestrantes, cada um dando uma “palinha” de seus assuntos antes de entrarem no debate.

O primeiro era um especialista em Vale do Silício, super descolado, com slides bonitos e conteúdo sobre novas tecnologias. Claro que o público gostou. A segunda era a CEO de uma grande empresa, que falou um pouco sobre sua experiência e também agradou. Até que veio o terceiro palestrante.

Ele era um senhor de idade, ligado a uma universidade pública. Talvez por uma questão de estilo, talvez por uma questão de geração, seus slides eram extremamente simples. E ele parecia um pouco desnorteado com o desafio de fazer uma apresentação interessante depois dos dois palestrantes anteriores.

Talvez por isso mesmo tenha aberto sua fala contando algo extremamente pessoal. Aquele era seu primeiro compromisso profissional público depois uma cirurgia de extração da próstata! Foi assim que ele abriu sua palestra, o que já causou um espanto geral em toda a plateia.

Aí ele fala mais uma meia dúzia de coisas, para um pouco, mexe na calça e comenta que ainda estava se adaptando à cueca com enchimento. Mais um susto da plateia, que não sabia se reagia com espanto e risada.

Preciso contar para vocês quem, dos três palestrantes, mais conquistou o público? Claro que não, pois vocês já sabem a resposta.

Ao dividir seus incômodos e angústias aquele senhor se conectou com cada uma das pessoas que estavam na plateia, afinal, quem nunca teve problemas de saúde atrapalhando compromissos profissionais? Eu, que dou aulas e palestras há anos, poderia enumerar uma dezena de vezes que coisas do tipo me aconteceram, desde perder a voz até ter um piriri incontrolável. A vida é isso mesmo.

Mas nem sempre é preciso dividir momentos vexaminosos para conseguir esse tipo de conexão e passar sua mensagem. O ponto é que por trás de toda plateia, empresa ou processo burocrático existem outros seres humanos. Gente como a gente que vai se emocionar com histórias de como vivenciamos e superamos dificuldades de todos os tipos.

Gente como a gente que, ao contrário do que o bom senso pressupõe, não vai ser convencida com dados, fatos e números, mas sim com o relato de experiências humanas transformadoras. Experiências que podem ser nossas ou até de outras pessoas, mas que vão pegar o público mais pela emoção do que pela razão.

Mas, por mais básico que isso pareça, pensar dessa forma ainda é um tabu no mundo corporativo. Por mais que o terceiro palestrante tenha se conectado com aquela plateia, provando a eficiência de uma boa história, 90% das pessoas ali presentes provavelmente teriam muita dificuldade em fazer algo parecido, ainda que fosse com um relato bem menos íntimo.

Esse é um dos motivos pelos quais eu, um especialista em storytelling, e o Paulo Roberto Ramos, preparador de palestrantes do TEDx no Brasil, nos juntamos para abrir o Story Talks. :).

PS: Em um próximo post prometo contar como me safei do piriri no meio da aula.

Segredos das Talks curtas, concisas e poderosas

Todo mundo que já assistiu as melhores TEDTalks sempre se pergunta como é que aqueles palestrantes conseguem ser tão precisos, colocando tanto conteúdo em tão pouco tempo. (Para quem ainda não conhece, as TEDTalks são palestras de até 18 minutos, sobre diversos temas, apresentadas nos eventos do TED e TEDx em diversos países e com milhões de visualizações no YouTube e no próprio site do TED.) Quando me perguntam sobre preparação; eu gosto de comparar a edição de uma Talk como o ato de apontar um lápis: o grafite é o mesmo; o que se faz é afiar; criar uma ponta aguda; para que o toque seja preciso e o traço, exato. É o mesmo grafite, numa nova forma, apenas isso. Mas para chegar à nova forma, é preciso retirar os excessos, as partes não essenciais. E esta parece ser a grande dificuldade quando as pessoas vão preparar-se para uma palestra ou talk.

Primeiro, porque os palestrantes conhecem bem o assunto sobre o qual vão falar; bem melhor que a média. Este é um ponto fundamental e indispensável, é claro; mas também é onde o palestrante pode começar a perder o seu público: exatamente quando ele entra no que se chama “a cegueira do conhecimento”; ele sabe tanto sobre seu assunto que “se esquece” que os demais não tem as mesmas referências que ele tem. Existem vários caminhos para afiar o assunto deixando apenas o essencial e evitar o problema da "cegueira do conhecimento", mas neste artigo vamos falar de dois dos mais importantes: o "processo de destilação" e o "ensaio com o desinformado”. 

Destilação

Destilação é um processo de chegar à essência. Se você lembra das aulas de química, é basicamente um processo de purificação e isso significa, necessariamente, reduzir. Mas reduzir não é cortar aleatoriamente. É comunicar as partes essenciais, encaixando-as precisamente; eliminando tudo que não seja indispensável. E, se você se lembra do processo químico, ele exige como fatores importantes: tempo e paciência. É muito simples e rápido reduzir jogando fora metade do conteúdo. Já purificar o conteúdo de todos os excessos; mantendo integralmente sua essência, é um processo que exige dedicação e tempo. É preciso rascunhar as idéias; anotar; escrever ou gravar. E depois; a cada vez que voltar ao conteúdo (muitas vezes, de preferência); comprometer-se a eliminar mais e mais excessos. Como escreveu certa vez Blaise Pascal: “fiz esta carta longa porque não tive tempo de fazê-la curta”.

O pensador estava ciente de que não havia tido o tempo suficiente para, justamente, “destilar” suas idéias até a forma mais sucinta. Isso nos leva àquele que o presidente do TED, Chris Anderson, chama de o “maior erro que um palestrante pode cometer”; ou seja: a falta de preparação; que ele iguala com “um desrespeito para com quem dedicou tempo a lhe ouvir”.

Existem muitas coisas que utilizamos na preparação dos palestrantes e que podem ajudar; mas é fundamental compreender que não existe substituto para a preparação em si. E o TED leva isso tão a sério, por exemplo, que exige, entre a liberação de uma licença e a data do evento; um mínimo de 90 dias de intervalo. 

O Desinformado

Já o que eu chamo de “ensaio com o desinformado” é um recurso maravilhoso, que infelizmente as pessoas pouco utilizam. Principalmente quando se prepara uma apresentação numa estrutura corporativa, chama-se a opinar diversas pessoas que entendem do assunto que vai ser tratado. Ok, também faz parte. Mas se, ao contrário, você apresentar sua idéia para um (ou vários) completo desinformado sobre o seu assunto, tenha certeza: ele vai lhe fazer perguntas que os especialistas no assunto jamais fariam. E no próprio exercício de tentar explicar seu assunto para um completo desinformado, você vai ter um olhar renovado para aquilo que está dizendo.

Para terminar; vou citar aqui o que disse uma das maiores mentes do nosso tempo, Albert Einstein:

“Se você não consegue explicar de um modo simples, não entendeu bem o suficiente”. 

Pois é, essa é a realidade: talvez você precise voltar ao seu assunto várias vezes até dominá-lo o suficiente para falar dele de modo simples, direto e ENCANTADOR. Porque apenas ser curto, rápido; mas não deixar o seu público encantado e com um poderoso efeito residual sobre o seu assunto; também não vai corresponder ao que você busca.

Sim, preparar uma talk realmente fantástica dá trabalho. Mas, como a imensa e crescente popularidade das TEDTalks comprova: quando você fizer cada minuto do seu público valer a pena, você terá feito com que cada minuto da sua preparação também tenha valido a pena.